A série Brave Women entrevista

Gizele Goes

Gizele Goes Tatuagens

São Paulo - Brazil

A história da Gizele é pura inspiração. Depois de duas décadas trabalhando como ilustradora na indústria têxtil ela decidiu responder ao chamado do coração para se lançar numa nova carreira como tatuadora. Seu olhar sobre o tema era diferente de toda a categoria (na entrevista ela conta porque) e se manter fiel ao que acreditava, apesar dos muitos avisos de que não daria certo, foi o que fez toda a diferença. Sua agenda, aberta em 19 de Julho de 2020, recebeu mais de 700 solicitações de orçamentos em 4 minutos!

Agora ela se prepara para uma nova aventura: mais de um ano viajando pelo Brasil e América Latina de kombi, tatuando e vivendo uma vida minimalista com seus 4 cães. A pandemia mostrou a ela que não fazia sentido esperar pelo momento perfeito, e quem ganha somos todos nós com este lindo talento. Confira abaixo um pouco mais sobre a história da Gi e acompanhe em breve pelo insta suas andanças pelo país.

Como você descreve o que faz? Conte um pouco sobre o seu negócio.

Eu sou ilustradora de pele. Eu criei esse termo pra mim porque eu sou ilustradora, e há três anos, tatuadora! Eu sempre ilustro a pele, e vejo a pele como minha área de trabalho. Ilustro as peles como se fossem meu papel!

Trabalhando na área têxtil a quase 20 anos, vi na tatuagem a possibilidade de poder fazer os desenhos detalhados e com primor. Sem cópias. Chegando no mundo da tatuagem encontro um mundo de cópias e de falta de respeito com os artistas e principalmente com as peles das pessoas! Me mantive firme. Desde meu início só fiz uma única releitura que ficou muito parecida, porque eu não tive pulso em dizer não, fiquei com dó! Mas me mantive firme desde então. Mesmo no início, precisando muito do dinheiro, eu recusei as cópias!

Não demorou muito pra minha agenda lotar! Hoje minha agenda abre duas vezes por ano. Recebo mais de 200 solicitações de orçamento em menos de 47 segundos. Outro fator que fez com que meu trabalho tivesse relevância é a questão das coberturas. Sou especialista em coberturas. Comecei a fazer por pura generosidade. Eu vi que eu podia resolver o problema das pessoas e assim fiz. Sem medo dos rótulos. Hoje as pessoas já se abriram mais pras coberturas, mas quando eu comecei ainda era um trabalho que ninguém queria fazer!



Como foi o começo? Você já sabia exatamente o que queria ou as coisas foram acontecendo mais organicamente, de uma forma evolutiva?

O começo da tatuagem pra mim foi bem diferente. Quando a gente vai ingressar numa área nova, a gente procura profissionais da área. Assim eu fiz e tudo que eu ouvia era que meu desenho não dava pra tatuar, que não era desenho de tatuagem. Quando eu falava que eu queria começar da maneira certa (não plagiando ninguém), eles me diziam que eu ia morrer de fome. Sempre achei interessante como parece errado ser certa.

Eu sabia que eu não queria copiar ninguém e nenhuma pele. Na minha cabeça é um absurdo o que o mundo da tatuagem insiste em perpetuar. Eles copiam artes de uma imagem levada pelo cliente, mas não vejo ninguém se preocupar com a pessoa atrás da imagem de referência. E a ela não é dada a chance de sequer escolher se quer ter seu trabalho copiado. Ela não tem a chance de escolher se quer ter tatuagem de "amiga" com quem ela nem conhece!

Sabendo que eu não iria copiar a ninguém e que eu faria um ou dois desenhos novos a cada dia, a evolução foi rápida! Eu nunca deixei de desenhar e de produzir, e na tatuagem não foi diferente. Na minha opinião, o caminho pra encontrar nosso estilo, é produzir MUITO.

As coisas acontecem rápido pra mim! Em 3 meses tatuando eu já tive que pedir demissão da empresa onde eu trabalhava na época. No segundo ano tatuando já recebi convites de estúdios ótimos de fora do país. Já recebi convite pra ser residente em um estúdio na Califórnia! Eu nunca imaginei que me manter firme num propósito, me levaria tão longe!




Trabalho original, nada de cópias

Como é sua rotina de trabalho? Como é um típico dia de trabalho seu?

Essa parte é interessante. Porque eu fico sabendo quem está agendada e qual arte que farei, apenas no dia, ou no máximo um dia antes! Eu funciono muito bem dessa forma! Trabalho na parte da tarde/noite! Eu chego no estúdio, higienizo tudo, principalmente a parte da aplicação! Deixo tudo organizado. Então recebo minha cliente, converso bastante pra saber das expectativas dela! Vejo se vou conseguir atender mesmo, me certifico que é mesmo meu trabalho que ela quer. Se sim, começo a criar a arte, e deixo a pessoa perto pra ela participar e ver de perto a criação da arte que ela levará pra sempre consigo! Se eu percebo que não vou conseguir atender as expectativas, prefiro perder um horário!

Desenho feito, aí eu faço o decalque (colar o carbono no corpo)! Essa parte eu também faço com bastante tempo, porque é um momento importante demais! Errar na localização é errar sem nem ter ligado a máquina! O decalque estando ok, é hora de fazer a aplicação! É o momento de desenhar novamente na pele! Quase sempre atendo só uma pessoa no dia, duas no máximo! Não tento fazer nada com pressa... Eu não conseguiria tentar fazer rápido um desenho que a tela é uma pessoa! A parte do desenho demora bastante... As vezes, é a parte que mais demora!






Qual a melhor parte e a maior dificuldade relacionada ao seu trabalho?

A parte que é ruim, é que meu portfolio depende bastante do meu público. E nem sempre as pessoas vão gostar exatamente do que eu gosto. Na maioria das vezes eu poderia ter ido uns passos a mais na criação da arte, mas a cliente não aceita. Cada uma de nós foi exposta a um tipo de informação durante a vida, consequentemente cada uma tem uma percepção e um gosto! Eu tenho empatia, entendo que é ela quem vai carregar a arte no corpo e deve ser assim. Mas também entendo que sempre vai existir essa limitação! E meu público vai sendo formado a partir das coisas que eu mostro e isso vai se tornando um ciclo.

Em breve a estação de trabalho da Gizele vai ser onde o vento levar

Qual o papel da criatividade na sua vida e no seu trabalho? O que significa para você viver uma vida criativa?

Criatividade pra mim é fundamental. Principalmente nas coberturas, porque cada uma delas que eu vou fazer, eu pergunto pra cliente o que ela tatuaria se ela não tivesse nada pra arrumar. Faço a cobertura com algo que ela queira e proporciono uma tatuagem nova pra essa vivente que já passou tanta vergonha com o que ela tinha é não gostava! Hehe

Sem viver uma vida criativa, esse trabalho não seria possível. A minha criatividade vem desde que me entendo por gente. Desde muito nova eu via algo que eu achava bonito e logo pensava - "Ah, mas se fosse de tal forma eu iria achar mais bonito"! Ou pensava - "Que lindo! Como posso fazer disso algo tão lindo quanto, mas que seja minha cara?" Isso me fez olhar pra tudo é já ir imaginando como ficaria se eu fizesse do meu jeito!

Não acredito que criatividade aconteça somente em momentos de inspiração. Eu não tenho momentos de inspiração! Todo dia é dia! E ainda bem! Eu atendo muita gente de fora do país, de outros estados. Já pensou se no dia de atender alguém de fora do país eu não estou no meu momento criativo? Hehe

Pra mim, criatividade é a capacidade de resolver tudo de forma eficiente e pensando sem sequer em usar caixa! Rs





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